terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Comentário da parashá Vayigash; uma frase de Fernando Pessoa

Sabemos que José é afastado de sua família em circunstâncias terríveis. Seus irmãos, ressentidos da preferência do pai para com ele, o negociam com mercadores que o levam para ser escravo no Egito. Os irmãos, em seguida, anunciam sua morte a Jacob, que se desespera. José então percorre um caminho tortuoso: a escravidão, a acusação de assédio sexual e a prisão. http://www.morasha.com.br/conteudo/artigos/artigos_view.asp?a=513&p=0

E como uma flor que nasce no pântano, é da prisão que ascende para a glória. José, chamado pelo faraó, anuncia-se como instrumento de Hashem, e desenvolve suas potencialidades de interpretar sonhos, seus dons administrativos e, quando homem liberto e importante líder, dá perdão incondicional aos irmãos e os envia de volta para Canaã para buscarem seu pai e toda a Casa de Israel.

É impossível contrariar a idéia de que foi a crueldade dos irmãos de José, que o venderam para ser escravizado, que criou a possibilidade de salvação da Casa de Jacob do flagelo da fome, e mais, da transformação dessa casa em uma grande nação: “Eu sou D´us, D´us de teu pai; não temas descer ao Egito, porque lá Eu farei de ti uma grande nação”. E as 70 almas da Casa de Jacob multiplicaram-se e formaram, conforme a promessa divina, um povo forte e atuante em terras egípicias.

Mas um dia o Faraó não mais reconheceu José, e o povo hebreu experimentou o amargor da escravidão. E quando as chicotadas pareciam incontáveis como os grãos de areia do deserto, surgiu o patriarca Moisés. E das pedras que sobrecarregavam os ombros hebreus, e também de castigos brutais aos egípicios, que insistiam em escravizar, abriu-se o mar Vermelho. Após a travessia, a dádiva das dádivas: a Torá, e com ela o sentinento de tornar-se uma nação livre e independente, nação que caminhou para a Terra que D´us havia prometido.

Parece ser assim a saga do nosso povo, um jogo de claro e escuro o tempo todo, fazendo nascer de fatos detestáveis tempos bons e sociedades construtivas, e dessas mesmas, novo mergulho na escuridão para logo adiante retornar, de maneira transformada, à vida e à prosperidade. José foi escravizado para salvar a Casa de Israel, a Casa de Israel foi escravizada para lutar contra a escravidão e tomar nos braços a Torá, para então tornar-se livre em sua própria terra.

Talvez o moderno Estado de Israel, modelo de bem-estar social e ponte para o futuro luminoso que breve abraçará a humanidade, tenha brotado da fumaça das fábricas de morte em série engendradas pelos alemães nazistas.

Estive recentemente em Eretz Israel, e algo curioso me aconteceu: sem nenhuma explicação, em muitos momentos, ao visitar locais religiosos e sítios históricos, me vinha à cabeça a imagem do poeta português Fernando Pessoa. Eu já sabia de sua ligação ancestral com o judaísmo; mas e daí? A resposta veio essa semana quando navegando pela Internet com o propósito de ler outros comentários sobre a parashá em questão, pesquei a seguinte frase do poeta: “Nunca ninguém se perdeu. Tudo é verdade e caminho.”

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Se eu te esquecer, Jerusalém, que paralise a minha destra. Colada fique a minha língua ao céu da boca se eu não te recordar, e se eu não erguer Jerusalém acima de minha alegria.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

O Dia de Cão da aviação brasileira e os mortos invisíveis

Rever bons filmes é um hábito que prezo. Alguns, além de não perderem a validade, parecem querer dialogar com o dia de hoje. Esse é o caso de Um Dia de Cão (1975), do diretor norte-americano Sidney Lumet. Para começar o filme vale a pena ser visto pela atuação de Al Pacino, que assombra a platéia como um bandido inexperiente que fracassa num assalto a uma agência de banco junto de seu comparsa. Ficam cercados e fazem reféns oito ou nove funcionários do banco. A partir disso a história fica excessivamente dramática e tensa, ainda que cômica em alguns detalhes. O filme é baseado em fatos reais, e a agência bancária nova iorquina cercada por centenas de policiais e várias emissoras de TVs tornou-se um acontecimento de audiência até então nunca experimentado na história da mídia norte-americana. A sensação que se tem ao ver Um Dia de Cão é que o espetáculo está acima, muito acima, de qualquer vida envolvida na situação cruel que se desenrola. Espetáculo e banalização da tragédia humana. E foi exatamente isso o que aconteceu poucos dias atrás com o desastre do avião da TAM.

Pensando no assalto retratado pelo filme e no acidente com o avião, na cobertura midiática anormal e exagerada que ambos os episódios tiveram, levanto uma questão. Será que alguns seres humanos valem mais que outros? Será? Desconfio que sim. Para tentar provar escolhi contabilizar, entre muitas formas estúpidas de se morrer em São Paulo, as mortes dos motoboys. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, entre 2005 e 2006 foram 336 vítimas fatais. Se incluirmos o ano atual, devemos passar de 500 rapazes pobres limados pelo asfalto selvagem das grandes avenidas da cidade. Cadê a comoção nacional? O grito da sociedade? O pulular de jornalistas indignados com as autoridades? E as autoridades e seus pronunciamentos? E as acusações sobre negligência e falta de infra-estrutura? O choro dos parentes? As imagens dos enterros nos telejornais? As flores levadas por populares? Cadê? Nada, são mortos invisíveis, e menos importantes que os 199 passageiros do vôo 3054 da TAM.

Bom, o detalhe positivo é que ao locar novamente o Dog Day Afternoon, filme que desencadeou essa divagação, uma moça de olhos lindos me contou que o diretor do filme tem um livro publicado (Fazendo Filmes, Editora Rocco). Fui ver o livro e sabe como Sidney Lumet define Um Dia de Cão? “As aberrações não são as aberrações que pensamos que são. Estamos muito mais ligados ao comportamento escandaloso do que sabemos ou admitimos”. Perfeito!

terça-feira, 10 de julho de 2007

Pauta para o Globo Reporter

Descobri recentemente que uma pesquisa realizada pela Academia Americana de Pediatria comprova dano cerebral em crianças com menos de dois anos quando essas são expostas à televisão. O estudo é conduzido pelo doutor Dimitri Christakis e foi publicado na edição de abril de 2004 da revista Pediatrics, da própria Academia. Confusão mental, impulsividade, impaciência e dificuldade de concentração são as seqüelas observadas nos pimpolhos. O interessante do estudo é que pouco importa o conteúdo exibido pela TV, o que derrete a caixola dos pequenos é a superposição rápida de imagens. Adoraria ver o Globo Reporter pautar matéria nessa pesquisa.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Chico e as formigas anti-semitas

Reza uma lenda que ao ser convidado para tocar e cantar no clube A Hebraica de São Paulo, Chico Buarque de Hollanda disse preferir se apresentar para as formigas do que para os judeus. Sempre suspeitei do trabalho subterrâneo e oculto desse inseto. E depois, formiga não sabe cantar, quem canta é a Cigarra, amiga dos ciganos. Juntos, em noites de lua cheia, enchem a floresta com música klezmer.

sábado, 23 de junho de 2007

Rabi, come back!

O Talmude diz que explicar a prosperidade dos malvados ou o problema dos bons está muito além do poder humano. Nada mais verdadeiro. Nada mais triste. Faz sete anos, recebi das mãos do rabino Henry Sobel um texto encomendado para um projeto editorial do qual eu tomava parte. O respeito com que o rabino me tratou, seu sorriso afável, seu olhar carinhoso, o brilhantismo e a sabedoria das palavras escolhidas para a apresentação do livro, o comparecimento de maneira sincera e espontânea ao evento dedicado ao mesmo, me fizeram ver e sentir que estava diante de um grande homem. Outras vezes e por outros motivos nossos caminhos se cruzaram. Sempre a sintonia positiva e a vontade de prolongar o encontro.
Stormy Weather, canta Sarah Vaughan. E eu ouço. E por favor, sem conotações superficiais. É a melancolia da música que me envolve.
Esse pequeno texto serve apenas para ser um pedido.
Rabino Henry Sobel, come back quickly, please!

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Velho Fagin, os Dickens enganam

Will Eisner, o homem que elevou os quadrinhos à categoria de arte, antes de nos deixar, passou a limpo uma bela história.

Incomodado pelo tratamento que Charles Dickens e seu ilustrador George Cruikshank dão a Fagin, na novela Oliver Twist, publicada em 1838, o mestre dos quadrinhos reconstitui a trajetória do personagem tomando como base o duro cenário social em que se encontravam os imigrantes na Inglaterra do século XIX. Eisner retira Fagin da obra de Dickens e o deixa falar. Ao final, Eisner, faz uma acareação entre Dickens e Fagin. Para entender o lance de xadrez do mestre dos quadrinhos devemos saber que na novela Fagin não é apenas Fagin, na maioria das vezes Dickens o denomina Judeu, apenas. E Fagin, o judeu (Eisner chama assim seu grafic novel), é um homem velho e decadente que explora meninos de rua na parte podre da Londres vitoriana. Ao final ficam frente a frente o escritor inglês e o "homem mau", para que esse conte sua história a seu criador.

E Fagin, condenado à forca, conta que é filho de judeus imigrantes asquenazes que se amontoavam nos piores lugares da cidade, conta também que percorreu uma vida de agressões, humilhações e degredo até tornar-se uma peça cinzenta do submundo londrino. Sua vida de menino foi tão complicada quanto a de Oliver e seus companheiros.

Jogando luz sobre a infância e juventude de Fagin, Eisner desmistifica e dá dignidade ao personagem. E fundamentalmente explica a Dickens que não se pode desprezar o passado das pessoas para avaliá-las e julgá-las.

Sei dos perigos dessa fórmula, e defendo o mestre americano dos quadrinhos em sua intenção de dizer ao inglês que não se pode tomar emprestado uma comunidade e empregar seu nome em um único indivíduo. Faça ele o que fizer. Fagin era judeu, e assim foi chamado, seu parceiro de crimes, Sikes, era gói, assim não foi chamado.

Eisner, homem do século XX, que nos honrou com mais cinco anos de vida em nosso século, coloca ao final do encontro áspero entre autor e personagem, palavras sombrias na boca de Dickens, “Adeus velho Fagin, nos próximos livros tratarei sua raça com mais isenção”.

Não é difícil sentir os ventos do inverno atual soprando nos ouvidos do mestre da nona arte.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Aviso aos que querem parar de fumar

NÃO ouçam Sophisticated Lady, de Duke Ellington.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Terror rural

Cláudio Assis criou um filme de terror diferente. Não apoia seu longa-metragem, Baixio das Bestas, em histórias do além-túmulo, paranormalidades, bruxarias, feitiçarias e vilões que saem da cova à noite para perseguir adolescentes. O cineasta concentrou as maldades humanas possíveis em uma cidadezinha do interior de Pernambuco e subtraiu disso uma atmosfera sombria, assustadora, tortuosa. A cena, que está entre as finais, de um bóia-fria torcendo e sugando o caldo de uma vara de cana-de-açucar é bela e grotesca, fascina e faz fechar os olhos ao mesmo tempo. A fotografia de Walter Carvalho é impagável. Dira Paes está maior que a tela. O duro é que o filme desperta sentimentos ruins nos espectadores. Saí do cinema e fui direto pra casa. Juro! http://www.youtube.com/watch?v=iABTe2O4GGc

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Freaks (1932)

Os cinéfilos consideram Freaks (EUA,1932) do diretor Tod Browning, uma pérola cinematográfica. Recentemente uma revista americana classificou a esquisita película em terceiro lugar de uma lista de 50 produções cults indispensáveis para a história do cinema.

http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=9654

O filme é chocante. E o é porque não utiliza atores, mas personagens reais confinados num circo de horrores para desenvolver uma trama nada original. Homens-troncos, anões, gêmeos siameses e deficientes físicos e mentais são objetos de atração e repulsa de espectadores que os visitam e de personagens "normais" que convivem com os Freaks no circo. A ficção-documento remete à tradição das "feiras de aberrações" itinerantes, que provavelmente tiveram origem na Idade Média, e atiçavam a curiosidade mórbida das populações por onde passavam. A exposição de pessoas deformadas constituiu na Europa, durante séculos, um negócio parecido com uma empresa familiar. Nos EUA chegou a ser algo mais lucrativo pelas mãos do empresário de espetáculos Phineas Taylor Barnum, antecessor de Walt Disney, que fundou em 1841 o Museu Americano, para expor "monstros" em pleno coração de Manhattan.

Não é fácil compreender as intenções de Tod Browning. Se procurou sensacionalismo e lucro usando pessoas supostamente fragilizadas (o filme causou polêmica e abalou a carreira do diretor), é verdade também que durante o filme os Freaks trabalham, procriam (como o caso da Mulher Barbada), têm caráter elevado (idéia aceitável apesar do maniqueísmo que permeia as relações), possuem espírito de coletividade, são tolerantes e includentes, "We accept you, one of us!", cantam em coro ao acolherem entre eles a trapezista que se casa com o rico anão Hans. Mesmo quando são violentos, a violência vem na forma de justiça para vingar uma tentativa de assassinato.

Só mais uma observação. Em uma das cenas iniciais dois homens caminham de maneira apressada, um é o dono de uma propriedade, o outro, seu empregado. O empregado, afobado, quer mostrar que a propriedade fora invadida por seres estranhos, o patrão, descrente da história, questiona a sanidade de seu lacaio. O cena segue rápida e entrecortada por diálogos ríspidos, até que o homem que já havia visto Madame Tetraline (a dona do circo) e seus "monstros" brincarem ao sol, profere algo como: "O governo francês deveria possuir uma lei para impedir que tais aberrações sobrevivessem". Isso me fez pensar no filme que assisti recentemente, esse sem dúvida uma pérola da filmografia mundial, trata-se do documentário 1900-Homo Sapiens, do genial diretor sueco Peter Cohen. Bom, isso é conversa para daqui a pouco...

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Vereador carioca e eugenia assumem namoro

Estou devendo uma visita à cidade merveilleuse. Vô te contar... Toda vez que lá estou tenho a sensação de que a vida vale a pena. Há algo no Rio que está acima da dicotomia morro/asfalto, que está para além das rivalidades futebolísticas, que supera até o balançar das curvas femininas passeando pelos calçadões cheios de ondas pretas pintadas em pedras brancas. Se a gente reparar bem, essas ondas pretas são enormes ésses (Ss) barrigudos que margeiam as areias quentes do Leme ao Pontal. Aaaahhh, não há nada igual... E a notícia que chega de lá também não há igual em outras paragens dos 8.456.510 km² de terra que perfazem o solo da complicada nação. Falei em "ésses (Ss)" rivalizando com as curvas femininas? Falei. Entretanto há ésses (Ss) que passam bem longe das musas de biquíni do Posto 9. São ésses (Ss) sombrios que assolaram o passado recente da humanidade, e foram desencavados (pelo menos em sua lembrança) tal e qual aquele filme de seqüência Sexta-Feira 13, em que o bicho medonho já congelado cova adentro ressurge pela pá e maldade de um lunático que o desenterra. O lunático aqui em questão é o vereador carioca Wilson Leite Passos, do Democratas, ex-PFL. Homem de pouco entendimento, verburrágico (u mesmo! uuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhh!!!!!) e que apresentou em 06 de março de 2007 um documento, ou melhor, um projeto de lei, o de número 1044/2007, que pretende, se aprovado, beneficiar casais saudáveis que produzam proles igualmente saudáveis, sejam lá quais forem os critérios e parâmetros que a anta política preconize como saúde.

"Vereador apresenta projeto para beneficiar família saudável que tenha filho sadio".

Li repetidas vezes o olho da matéria de O Globo Online de 01 de abril de 2007 http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/04/01/295175547.asp. De bate e pronto pensei: 1º de abril! Claro, brincadeira do jornal no dia da mentira. Mas não, vi que não era brincadeira, e confesso que fiquei arrepiado. Como é que alguém pode apresentar um projeto eugenista em pleno século XXI? E no Rio de Janeiro! Na cidade merveilleuse! Caracas, em um momento em que as discussões são pela inclusão das "minorias", e as políticas afirmativas que sustentam essa idéia são postas à prova, vem alguém cuspir segregação ao apresentar um projeto de lei beneficiando os "saudáveis" em detrimento dos "menos adaptados"! Pode? Pode. Fui atrás de ler o projeto de lei. Li.

O projeto apresenta benefícios aos que não portarem deficiências físicas ou mentais: ensino grátis em todos os níveis, assistência médica grátis até completar os estudos e redução de impostos para os pais dos beneficiados. Os demais cidadãos da nação, segundo palavras do vereador, são os “mal dotados, improdutivos, enfermos de toda ordem” aqueles que “dessangram, quando não destroem, toda a resultante da força criadora, produtiva, das parcelas sadias da Sociedade” , são os que tornam o Brasil um “vasto hospital, hospício e xadrez”, e estão “crescendo em desequilíbrios e infelicidades individuais e coletivas”.

Esse vereador da cidade do Rio de Janeiro está na vanguarda dos movimentos neonazistas do século XXI. Podem apostar.

Ditado iídiche

Como o jardim, assim é o jardineiro.