sexta-feira, 27 de abril de 2007

Freaks (1932)

Os cinéfilos consideram Freaks (EUA,1932) do diretor Tod Browning, uma pérola cinematográfica. Recentemente uma revista americana classificou a esquisita película em terceiro lugar de uma lista de 50 produções cults indispensáveis para a história do cinema.

http://www.2001video.com.br/detalhes_produto_extra_dvd.asp?produto=9654

O filme é chocante. E o é porque não utiliza atores, mas personagens reais confinados num circo de horrores para desenvolver uma trama nada original. Homens-troncos, anões, gêmeos siameses e deficientes físicos e mentais são objetos de atração e repulsa de espectadores que os visitam e de personagens "normais" que convivem com os Freaks no circo. A ficção-documento remete à tradição das "feiras de aberrações" itinerantes, que provavelmente tiveram origem na Idade Média, e atiçavam a curiosidade mórbida das populações por onde passavam. A exposição de pessoas deformadas constituiu na Europa, durante séculos, um negócio parecido com uma empresa familiar. Nos EUA chegou a ser algo mais lucrativo pelas mãos do empresário de espetáculos Phineas Taylor Barnum, antecessor de Walt Disney, que fundou em 1841 o Museu Americano, para expor "monstros" em pleno coração de Manhattan.

Não é fácil compreender as intenções de Tod Browning. Se procurou sensacionalismo e lucro usando pessoas supostamente fragilizadas (o filme causou polêmica e abalou a carreira do diretor), é verdade também que durante o filme os Freaks trabalham, procriam (como o caso da Mulher Barbada), têm caráter elevado (idéia aceitável apesar do maniqueísmo que permeia as relações), possuem espírito de coletividade, são tolerantes e includentes, "We accept you, one of us!", cantam em coro ao acolherem entre eles a trapezista que se casa com o rico anão Hans. Mesmo quando são violentos, a violência vem na forma de justiça para vingar uma tentativa de assassinato.

Só mais uma observação. Em uma das cenas iniciais dois homens caminham de maneira apressada, um é o dono de uma propriedade, o outro, seu empregado. O empregado, afobado, quer mostrar que a propriedade fora invadida por seres estranhos, o patrão, descrente da história, questiona a sanidade de seu lacaio. O cena segue rápida e entrecortada por diálogos ríspidos, até que o homem que já havia visto Madame Tetraline (a dona do circo) e seus "monstros" brincarem ao sol, profere algo como: "O governo francês deveria possuir uma lei para impedir que tais aberrações sobrevivessem". Isso me fez pensar no filme que assisti recentemente, esse sem dúvida uma pérola da filmografia mundial, trata-se do documentário 1900-Homo Sapiens, do genial diretor sueco Peter Cohen. Bom, isso é conversa para daqui a pouco...

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Vereador carioca e eugenia assumem namoro

Estou devendo uma visita à cidade merveilleuse. Vô te contar... Toda vez que lá estou tenho a sensação de que a vida vale a pena. Há algo no Rio que está acima da dicotomia morro/asfalto, que está para além das rivalidades futebolísticas, que supera até o balançar das curvas femininas passeando pelos calçadões cheios de ondas pretas pintadas em pedras brancas. Se a gente reparar bem, essas ondas pretas são enormes ésses (Ss) barrigudos que margeiam as areias quentes do Leme ao Pontal. Aaaahhh, não há nada igual... E a notícia que chega de lá também não há igual em outras paragens dos 8.456.510 km² de terra que perfazem o solo da complicada nação. Falei em "ésses (Ss)" rivalizando com as curvas femininas? Falei. Entretanto há ésses (Ss) que passam bem longe das musas de biquíni do Posto 9. São ésses (Ss) sombrios que assolaram o passado recente da humanidade, e foram desencavados (pelo menos em sua lembrança) tal e qual aquele filme de seqüência Sexta-Feira 13, em que o bicho medonho já congelado cova adentro ressurge pela pá e maldade de um lunático que o desenterra. O lunático aqui em questão é o vereador carioca Wilson Leite Passos, do Democratas, ex-PFL. Homem de pouco entendimento, verburrágico (u mesmo! uuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhh!!!!!) e que apresentou em 06 de março de 2007 um documento, ou melhor, um projeto de lei, o de número 1044/2007, que pretende, se aprovado, beneficiar casais saudáveis que produzam proles igualmente saudáveis, sejam lá quais forem os critérios e parâmetros que a anta política preconize como saúde.

"Vereador apresenta projeto para beneficiar família saudável que tenha filho sadio".

Li repetidas vezes o olho da matéria de O Globo Online de 01 de abril de 2007 http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/04/01/295175547.asp. De bate e pronto pensei: 1º de abril! Claro, brincadeira do jornal no dia da mentira. Mas não, vi que não era brincadeira, e confesso que fiquei arrepiado. Como é que alguém pode apresentar um projeto eugenista em pleno século XXI? E no Rio de Janeiro! Na cidade merveilleuse! Caracas, em um momento em que as discussões são pela inclusão das "minorias", e as políticas afirmativas que sustentam essa idéia são postas à prova, vem alguém cuspir segregação ao apresentar um projeto de lei beneficiando os "saudáveis" em detrimento dos "menos adaptados"! Pode? Pode. Fui atrás de ler o projeto de lei. Li.

O projeto apresenta benefícios aos que não portarem deficiências físicas ou mentais: ensino grátis em todos os níveis, assistência médica grátis até completar os estudos e redução de impostos para os pais dos beneficiados. Os demais cidadãos da nação, segundo palavras do vereador, são os “mal dotados, improdutivos, enfermos de toda ordem” aqueles que “dessangram, quando não destroem, toda a resultante da força criadora, produtiva, das parcelas sadias da Sociedade” , são os que tornam o Brasil um “vasto hospital, hospício e xadrez”, e estão “crescendo em desequilíbrios e infelicidades individuais e coletivas”.

Esse vereador da cidade do Rio de Janeiro está na vanguarda dos movimentos neonazistas do século XXI. Podem apostar.

Ditado iídiche

Como o jardim, assim é o jardineiro.