Os cinéfilos consideram Freaks (EUA,1932) do diretor Tod Browning, uma pérola cinematográfica. Recentemente uma revista americana classificou a esquisita película em terceiro lugar de uma lista de 50 produções cults indispensáveis para a história do cinema.
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O filme é chocante. E o é porque não utiliza atores, mas personagens reais confinados num circo de horrores para desenvolver uma trama nada original. Homens-troncos, anões, gêmeos siameses e deficientes físicos e mentais são objetos de atração e repulsa de espectadores que os visitam e de personagens "normais" que convivem com os Freaks no circo. A ficção-documento remete à tradição das "feiras de aberrações" itinerantes, que provavelmente tiveram origem na Idade Média, e atiçavam a curiosidade mórbida das populações por onde passavam. A exposição de pessoas deformadas constituiu na Europa, durante séculos, um negócio parecido com uma empresa familiar. Nos EUA chegou a ser algo mais lucrativo pelas mãos do empresário de espetáculos Phineas Taylor Barnum, antecessor de Walt Disney, que fundou em 1841 o Museu Americano, para expor "monstros" em pleno coração de Manhattan.
Não é fácil compreender as intenções de Tod Browning. Se procurou sensacionalismo e lucro usando pessoas supostamente fragilizadas (o filme causou polêmica e abalou a carreira do diretor), é verdade também que durante o filme os Freaks trabalham, procriam (como o caso da Mulher Barbada), têm caráter elevado (idéia aceitável apesar do maniqueísmo que permeia as relações), possuem espírito de coletividade, são tolerantes e includentes, "We accept you, one of us!", cantam em coro ao acolherem entre eles a trapezista que se casa com o rico anão Hans. Mesmo quando são violentos, a violência vem na forma de justiça para vingar uma tentativa de assassinato.
Só mais uma observação. Em uma das cenas iniciais dois homens caminham de maneira apressada, um é o dono de uma propriedade, o outro, seu empregado. O empregado, afobado, quer mostrar que a propriedade fora invadida por seres estranhos, o patrão, descrente da história, questiona a sanidade de seu lacaio. O cena segue rápida e entrecortada por diálogos ríspidos, até que o homem que já havia visto Madame Tetraline (a dona do circo) e seus "monstros" brincarem ao sol, profere algo como: "O governo francês deveria possuir uma lei para impedir que tais aberrações sobrevivessem". Isso me fez pensar no filme que assisti recentemente, esse sem dúvida uma pérola da filmografia mundial, trata-se do documentário 1900-Homo Sapiens, do genial diretor sueco Peter Cohen. Bom, isso é conversa para daqui a pouco...
