Estou devendo uma visita à cidade merveilleuse. Vô te contar... Toda vez que lá estou tenho a sensação de que a vida vale a pena. Há algo no Rio que está acima da dicotomia morro/asfalto, que está para além das rivalidades futebolísticas, que supera até o balançar das curvas femininas passeando pelos calçadões cheios de ondas pretas pintadas em pedras brancas. Se a gente reparar bem, essas ondas pretas são enormes ésses (Ss) barrigudos que margeiam as areias quentes do Leme ao Pontal. Aaaahhh, não há nada igual... E a notícia que chega de lá também não há igual em outras paragens dos 8.456.510 km² de terra que perfazem o solo da complicada nação. Falei em "ésses (Ss)" rivalizando com as curvas femininas? Falei. Entretanto há ésses (Ss) que passam bem longe das musas de biquíni do Posto 9. São ésses (Ss) sombrios que assolaram o passado recente da humanidade, e foram desencavados (pelo menos em sua lembrança) tal e qual aquele filme de seqüência Sexta-Feira 13, em que o bicho medonho já congelado cova adentro ressurge pela pá e maldade de um lunático que o desenterra. O lunático aqui em questão é o vereador carioca Wilson Leite Passos, do Democratas, ex-PFL. Homem de pouco entendimento, verburrágico (u mesmo! uuuuuuuuuuuuhhhhhhhhhh!!!!!) e que apresentou em 06 de março de 2007 um documento, ou melhor, um projeto de lei, o de número 1044/2007, que pretende, se aprovado, beneficiar casais saudáveis que produzam proles igualmente saudáveis, sejam lá quais forem os critérios e parâmetros que a anta política preconize como saúde.
"Vereador apresenta projeto para beneficiar família saudável que tenha filho sadio".
Li repetidas vezes o olho da matéria de O Globo Online de 01 de abril de 2007 http://oglobo.globo.com/rio/mat/2007/04/01/295175547.asp. De bate e pronto pensei: 1º de abril! Claro, brincadeira do jornal no dia da mentira. Mas não, vi que não era brincadeira, e confesso que fiquei arrepiado. Como é que alguém pode apresentar um projeto eugenista em pleno século XXI? E no Rio de Janeiro! Na cidade merveilleuse! Caracas, em um momento em que as discussões são pela inclusão das "minorias", e as políticas afirmativas que sustentam essa idéia são postas à prova, vem alguém cuspir segregação ao apresentar um projeto de lei beneficiando os "saudáveis" em detrimento dos "menos adaptados"! Pode? Pode. Fui atrás de ler o projeto de lei. Li.
O projeto apresenta benefícios aos que não portarem deficiências físicas ou mentais: ensino grátis em todos os níveis, assistência médica grátis até completar os estudos e redução de impostos para os pais dos beneficiados. Os demais cidadãos da nação, segundo palavras do vereador, são os “mal dotados, improdutivos, enfermos de toda ordem” aqueles que “dessangram, quando não destroem, toda a resultante da força criadora, produtiva, das parcelas sadias da Sociedade” , são os que tornam o Brasil um “vasto hospital, hospício e xadrez”, e estão “crescendo em desequilíbrios e infelicidades individuais e coletivas”.
Esse vereador da cidade do Rio de Janeiro está na vanguarda dos movimentos neonazistas do século XXI. Podem apostar.
2 comentários:
Cruzes!!! Mas, se há um louco anacrônico como este lançando um projeto de lei deste "quilate", haverá outros loucos que aprovam e promulgam essa insanidade?
Como já dizia minha avô... este mundo está perdido!
Acho que o hospício a que ele se refere é o que cede espaço à sua enfermidade. Vereadores são eleitos, mas não são concursados e muito menos selecionados por psicólogos para confirmarem a aptidão ao cargo em questão.
Existem muitos loucos que não estão fundamentados em ideologias e um deles é o defensor de um projeto que o inclui no pagamento de impostos .
A Câmara está uma desordem e este senhor, já tem outros mandatos, se não me falha a memória. Quem vota neste cidadão?
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