sábado, 23 de junho de 2007

Rabi, come back!

O Talmude diz que explicar a prosperidade dos malvados ou o problema dos bons está muito além do poder humano. Nada mais verdadeiro. Nada mais triste. Faz sete anos, recebi das mãos do rabino Henry Sobel um texto encomendado para um projeto editorial do qual eu tomava parte. O respeito com que o rabino me tratou, seu sorriso afável, seu olhar carinhoso, o brilhantismo e a sabedoria das palavras escolhidas para a apresentação do livro, o comparecimento de maneira sincera e espontânea ao evento dedicado ao mesmo, me fizeram ver e sentir que estava diante de um grande homem. Outras vezes e por outros motivos nossos caminhos se cruzaram. Sempre a sintonia positiva e a vontade de prolongar o encontro.
Stormy Weather, canta Sarah Vaughan. E eu ouço. E por favor, sem conotações superficiais. É a melancolia da música que me envolve.
Esse pequeno texto serve apenas para ser um pedido.
Rabino Henry Sobel, come back quickly, please!

quarta-feira, 13 de junho de 2007

Velho Fagin, os Dickens enganam

Will Eisner, o homem que elevou os quadrinhos à categoria de arte, antes de nos deixar, passou a limpo uma bela história.

Incomodado pelo tratamento que Charles Dickens e seu ilustrador George Cruikshank dão a Fagin, na novela Oliver Twist, publicada em 1838, o mestre dos quadrinhos reconstitui a trajetória do personagem tomando como base o duro cenário social em que se encontravam os imigrantes na Inglaterra do século XIX. Eisner retira Fagin da obra de Dickens e o deixa falar. Ao final, Eisner, faz uma acareação entre Dickens e Fagin. Para entender o lance de xadrez do mestre dos quadrinhos devemos saber que na novela Fagin não é apenas Fagin, na maioria das vezes Dickens o denomina Judeu, apenas. E Fagin, o judeu (Eisner chama assim seu grafic novel), é um homem velho e decadente que explora meninos de rua na parte podre da Londres vitoriana. Ao final ficam frente a frente o escritor inglês e o "homem mau", para que esse conte sua história a seu criador.

E Fagin, condenado à forca, conta que é filho de judeus imigrantes asquenazes que se amontoavam nos piores lugares da cidade, conta também que percorreu uma vida de agressões, humilhações e degredo até tornar-se uma peça cinzenta do submundo londrino. Sua vida de menino foi tão complicada quanto a de Oliver e seus companheiros.

Jogando luz sobre a infância e juventude de Fagin, Eisner desmistifica e dá dignidade ao personagem. E fundamentalmente explica a Dickens que não se pode desprezar o passado das pessoas para avaliá-las e julgá-las.

Sei dos perigos dessa fórmula, e defendo o mestre americano dos quadrinhos em sua intenção de dizer ao inglês que não se pode tomar emprestado uma comunidade e empregar seu nome em um único indivíduo. Faça ele o que fizer. Fagin era judeu, e assim foi chamado, seu parceiro de crimes, Sikes, era gói, assim não foi chamado.

Eisner, homem do século XX, que nos honrou com mais cinco anos de vida em nosso século, coloca ao final do encontro áspero entre autor e personagem, palavras sombrias na boca de Dickens, “Adeus velho Fagin, nos próximos livros tratarei sua raça com mais isenção”.

Não é difícil sentir os ventos do inverno atual soprando nos ouvidos do mestre da nona arte.