Rever bons filmes é um hábito que prezo. Alguns, além de não perderem a validade, parecem querer dialogar com o dia de hoje. Esse é o caso de Um Dia de Cão (1975), do diretor norte-americano Sidney Lumet. Para começar o filme vale a pena ser visto pela atuação de Al Pacino, que assombra a platéia como um bandido inexperiente que fracassa num assalto a uma agência de banco junto de seu comparsa. Ficam cercados e fazem reféns oito ou nove funcionários do banco. A partir disso a história fica excessivamente dramática e tensa, ainda que cômica em alguns detalhes. O filme é baseado em fatos reais, e a agência bancária nova iorquina cercada por centenas de policiais e várias emissoras de TVs tornou-se um acontecimento de audiência até então nunca experimentado na história da mídia norte-americana. A sensação que se tem ao ver Um Dia de Cão é que o espetáculo está acima, muito acima, de qualquer vida envolvida na situação cruel que se desenrola. Espetáculo e banalização da tragédia humana. E foi exatamente isso o que aconteceu poucos dias atrás com o desastre do avião da TAM.
Pensando no assalto retratado pelo filme e no acidente com o avião, na cobertura midiática anormal e exagerada que ambos os episódios tiveram, levanto uma questão. Será que alguns seres humanos valem mais que outros? Será? Desconfio que sim. Para tentar provar escolhi contabilizar, entre muitas formas estúpidas de se morrer em São Paulo, as mortes dos motoboys. Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, entre 2005 e 2006 foram 336 vítimas fatais. Se incluirmos o ano atual, devemos passar de 500 rapazes pobres limados pelo asfalto selvagem das grandes avenidas da cidade. Cadê a comoção nacional? O grito da sociedade? O pulular de jornalistas indignados com as autoridades? E as autoridades e seus pronunciamentos? E as acusações sobre negligência e falta de infra-estrutura? O choro dos parentes? As imagens dos enterros nos telejornais? As flores levadas por populares? Cadê? Nada, são mortos invisíveis, e menos importantes que os 199 passageiros do vôo 3054 da TAM.
Bom, o detalhe positivo é que ao locar novamente o Dog Day Afternoon, filme que desencadeou essa divagação, uma moça de olhos lindos me contou que o diretor do filme tem um livro publicado (Fazendo Filmes, Editora Rocco). Fui ver o livro e sabe como Sidney Lumet define Um Dia de Cão? “As aberrações não são as aberrações que pensamos que são. Estamos muito mais ligados ao comportamento escandaloso do que sabemos ou admitimos”. Perfeito!
4 comentários:
É, Edu, hoje em dia há muita gente discursando sobre muita coisa... Muito si fala sobre a necessidade de fazer alguma coisa, mas paramos no discurso. Por que?
Novamente, há muitas teorias para isso TAMBÉM!
A razão disso, se qual for, não importa tanto. Se conseguirmos enxergar esse fenômeno como ele realmente é poderemos revertê-lo, sem saber de onde ele veio. Mas acredito que ainda estamos longe disso...
Nesse sentido, uma sugestão de leitura: 1968, o ano que não terminou.
Comparemos os fatos!!!!!!!!!
putz, "si" fala foi tosco! Foi mal, Gramática, erro de digitação rsrsrsrs
Grande Edu, grande texto.
Oswaldo,
Valeu. Estou ansioso para escrever sobre nosso projeto. Que tal uma entrevista com o produtor musical?
Abraço
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