Os meses que antecederam maio de 1948 foram particularmente difíceis para os judeus da Palestina. No campo diplomático, a violência árabe surtia efeito e fazia o mundo recuar no propósito de apoiá-los a ter sua própria nação. A luta política pela votação favorável à partilha, nas Nações Unidas, acirrava-se a cada minuto. No campo de batalha, os inimigos do futuro Estado de Israel preparavam-se para um ataque massivo em caso de votação favorável, e os judeus da Palestina teriam de enfrentar sozinhos inimigos muito poderosos.
Numa atmosfera assim era vital possuir armas, mais que isso, era necessário forjar uma máquina de guerra moderna que assegurasse as pretensões de autodeterminação do povo judeu.
Vamos entrar mais nessa história. Vamos a uma reunião dos líderes sionistas em Tel Aviv em janeiro de 1948 para observar a face amargurada de Ben Gurion lendo e relendo o relatório de seu tesoureiro. Não havia dinheiro para a inevitável guerra com os árabes inimigos. A fonte da comunidade judaica americana secara, pois essa deixava de crer na possibilidade de uma emancipação judaica no longínquo oriente-médio. Como se não bastasse o cansaço de quem já contribuíra e não conseguia ver nenhum avanço, grupos religiosos anti-sionistas faziam balançar a simpatia dos apoiadores da causa judaica na Palestina, e depois, necessidades mais próximas, como reconstruir a vida dos sobreviventes que estavam em solo americano e dar manutenção às comunidades mais pobres, monopolizavam as atenções e os recursos.
Era catastrófico. Um sonho de gerações estava prestes a repousar no fundo do Mar Vermelho, ou perecer de fome no deserto, ou ser dizimado por armas inimigas, que a essa altura pouco importavam se egípcias modernas ou ancestrais. Estavam apertados os corações dos mais exaltados sionistas.
Ben Gurion levantou-se para partir junto de seu secretário para os EUA e tentar reverter o jogo quando foi surpreendido por uma mulher que lhe disse: “O que o senhor pode fazer aqui, eu não posso, mas o que o senhor pode fazer nos EUA eu também posso”. Ben Gurion ficou muito contrariado, mas afinal cedeu por voto do executivo, e no mesmo dia Golda Meir voou para a América. Sem tempo de passar em casa e fazer as malas, Golda desembarcou em Nova York numa manhã atrozmente fria portanto um vestido leve e uma bolsa de mão.
Golda estivera nos EUA anteriormente e criara uma rede de relações que quase não lhe valia nada naquele momento: mulheres pioneiras, sionistas-trabalhistas, sindicatos, judeus socialistas, grupos de jovens etc. Em suma, gente sem recursos. Como fazer para acertar o coração dos judeus mais abastados, homens e mulheres que podiam lhe dar o que ela precisava: 25 milhões de dólares e a continuação do sonho de existir.
Golda estava em situação muito difícil.
E então quando uma saída parecia impossível, uma notícia surpreendente chegou ao ouvidos da corajosa mulher. Dois dias depois de ter chegado em Nova York, Golda Meir ficou sabendo que aconteceria uma conferência do Conselho das Federações Judaicas em Chicago. A pauta da conferência não incluía nem de longe os problemas da Palestina, e nem mesmo havia sionistas entre os conferencistas, mas lá estava a camada financeira superior do judeus americanos. Golda não perdeu tempo, fez contato com os organizadores e implorou muito para ter um pequeno lugar na programação de fala da conferência. Foi muitas vezes aconselhada a deixar a idéia de lado, pois segundo seus aconselhadores seria improdutivo falar a uma platéia que não queria ouvir o que ela tinha para falar. Mas Golda, vestida modestamente, com o cabelo repartido ao meio e atado em um nó, falou, e sensibilizou os presentes, e conseguiu na mesma noite dinheiro para o propósito sionista na Palestina, e recebeu indicações para buscar em outros lugares dos EUA mais contribuições que chegaram ao montante de 50 milhões de dólares. Dinheiro que possibilitou a fundação de um Estado judaico na Palestina 2000 anos depois da expulsão da Casa de Israel pelos romanos.
Um dos presentes a essa conferência assim descreveu Golda enquanto falava: “Nunca tínhamos visto ninguém como ela, tão simples, tão forte, tão à moda antiga... exatamente como uma mulher saída da Bíblia.”
