segunda-feira, 16 de março de 2009
Depois da tempestade
• Se eu pudesse, e fosse aceito, transitar em várias redações de jornais, TVs, rádios e mídias eletrônicas, tenho certeza que constataria sem assombro que a ofensiva israelense em Gaza por conta dos sucessivos ataques do Hamas contra o sul de Israel é hoje uma ficha que ocupa o arquivo morto das mesmas redações. Muito provavelmente os jornalistas não se lembrem mais das datas em que se deram os fatos envolvendo a contenda, nem exatamente quantos mortos foram enterrados e (aí é pedir demais!) o que a escaramuça fez surgir como alteração geopolítica na região. Porém isso é explicável, afinal tantas coisas já se passaram após o acalmar dos ânimos lá no Oriente Médio. Crise, Obama, sucessão presidencial, asilo a assassino italiano e a volta do Fenômeno aos gramados apagaram a tinta forte que outrora foi o combustível do ódio contra Israel aqui em praças tupiniquins. Agora já não interessa, como de fato nunca interessou; foi apenas uma demonstração da nossa costumeira histeria coletiva tão bem cultivada e incensada por midiáticos e célebres: "Agora todo mundo bate palma e levanta do chão! Uhuuu! Israel mata criancinha, nós o odiamos, nós o odiamos!"
• A frase uma vez proferida por Oswald de Andrade "bosta mental sul-americana", foi às alturas. Atingiu a Venezuela e seu caudilho anti-semita, assim como seu funcionário boliviano. Ambos aproveitaram a ocasião para brilharem internacionalmente, algo que não conseguem fazer por méritos patrióticos verdadeiros e democráticos. Tudo o que fazem é permeado por fanfarronices e esquerdofrenias. Engraçado, alguns (muitos) índios modernos confundem a kefia dos terroristas islâmicos com a boina de Che Guevara. Que tipo de miopia será essa?
• Enquanto consegui e pude, dialoguei com conhecidos desinformados e indignados, chamei atenção de jornalistas destemperados e conversei com amigos que tem ciência e comprometimento com o assunto. Até em manifestação no Memorial da América Latina fui.
• Quero só deixar registrado uma troca de e-mails com a jornalista da Folha de S. Paulo, Eliane Catanhêde. Acho-o ilustrativo e sintomático.
A jornalista em sua coluna, no dia 07.01.2009 pincela sobre um livro que chamou sua atenção, no nono parágrafo ela põe aspas em terroristas e diz que os mesmo fazem guerra com mísseis praticamente caseiros. A ordem é a seguinte: meu e-mail, a resposta de Eliane, minha réplica e o silêncio dela.
• Sra. Catanhêde,
Grafar terroristas com aspas ("terroristas") abre espaço para o quê? O que a Sra. quer dizer? E escrever "foguetes de fabricação praticamente caseira" só serve para desinformar e alastrar o ódio aos judeus. A população civil (sem aspas) de Gaza está absolutamente desamparada pelos terroristas que dizem protegê-la. Escondem-se em hospitais, mesquitas e escolas e disparam mísseis que viajam 40 km e têm o poder de botar um prédio de quatro andares abaixo. A resposta do exército é dura e vocês jornalistas têm o deleite de mostrar ao mundo cenas chocantes. Os civis do sul de Israel não protagonizam os mesmo espetáculo pois as autoridades israelenses os defendem com muita eficiência. Ah, experimente ficar embaixo de um "foguete de fabricação praticamente caseira". Obrigado, Eduardo Pedroso
• Sr. Pedroso,
"Terrorista" é um termo oficial admitido pela ONU. Os EUA e Israel classificam o Hamas como "terrorista", o que não é o caso do governo brasileiro e de muitos outros governos mundo afora. O sr. quer que eu abra espaço para o quê? Para assumir como minha a posição dos EUA?
O sr., por favor, compare o arsenal bélico de Israel com o dos palestinos, para entender do que estou falando.
Não defendo nem um nem o outro lado, mas que a reação é desproporcional, isso é inquestionável.
Atenciosamente,
Eliane
• Não Eliane, não precisa assumir como sua a posição dos EUA, se é isso que a incomoda. Basta apenas que usemos o bom senso para admitirmos que um grupo radical da ultradireita religiosa islâmica nomeado Hamas tem como único objetivo destruir Israel. Já teve um vizinho que quis sua morte? Imagine tal coisa. Você se defenderia (e eu também) com o que você tem de melhor.
O Hamas é terrorista não por uma convenção burocrática internacional e sim por atentar contra a vida de inocentes, inclusive os civis de Gaza, que pagam caro por essa terrível convivência. Atenciosamente, Eduardo Pedroso
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